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Entrevista de Emprego

Ele tinha aquele pelo enorme saindo de dentro do nariz dele. Era só um pelo, todo mundo tem pelos, eu sei. Mas era enorme. E negro. Como podia um único pelo ser tão longo? Longo e negro e enorme e nojento e vergonhoso e ele parecia não sentir vergonha daquele pelo que lhe saltava narina afora. Eu não conseguia me concentrar. Vai Fred, fala pra ele como você entende do assunto, como você é a pessoa exata para o cargo, como você resolveria todos os problemas da empresa dele no café da manhã e com uma mão nas costas, era só ser contratado.


Mas pra ser contratado eu tinha que falar bonito, e tudo que eu conseguia pensar era naquele pelo enorme lhe saindo da narina esquerda. Esquerda dele, não minha, que as pessoas costumam se confundir entre esquerda e direita dizendo a sua esquerda, mas se a narina é dele tem que falar a esquerda dele, e não a minha direita. Uns dizem que a direita é a mão que escreve, daí é fácil de se lembrar, mas eu sou canhoto e escrevo com a mão esquerda, então se alguém me manda levantar a mão que escreve eu levanto a esquerda e não a direita como ela queria e dão risada de mim que nem aquele dia no colégio que eu levantei a esquerda e a professora disse que não, porque a direita é a outra e eu ouvi baixinho o menino loiro que sentava atrás de mim falando burroburroburro, ele dizia burroburroburro baixinho para a professora não escutar, mas eu escutava e chorava de noite quando minha mãe não tava vendo e o meu irmão mais velho já tava dormindo.


E eu pensava em tudo isso quando olhava aquele pelo enorme saindo do nariz dele, pensava tudo isso, só não conseguia pensar no que deveria falar para conseguir aquele emprego. Coordenador. Eu nunca tinha sido coordenador e queria aquele emprego. O salário era ruim, era uma mixaria e eu merecia ganhar muito mais, mas ser coordenador era bom, ia pesar no meu currículo. Vai ser bom pro teu currículo, meu pai sempre dizia quando eu ia trabalhar num emprego ruim que não me pagava tanto quanto eu merecia receber.


Mas você tem que roer carne de pescoço pra depois comer o filé mignon, meu pai sempre dizia nessas horas. Mas eu não quero roer carne de pescoço, não gosto de carne de pescoço. Na verdade eu nunca comi carne de pescoço, mas imagino que eu não vá gostar de carne de pescoço já que ela é usada como exemplo para dizer que é o oposto de mignon. E eu gosto de mignon, então acho que não vou gostar de carne de pescoço.


Mas ali tava eu já pensando em comida e o estômago roncava, e eu tentava disfarçar me mexendo na cadeira pra fazer barulho e já pensando se o cara na minha frente tinha ouvido o meu estômago, e quando eu olhava pra ele via de novo aquele fio preto horroroso saindo de dentro do nariz dele e o mignon desaparecia, o menino loiro que me chamava de burroburroburro desaparecia e a minha faculdade e o meu currículo desapareciam também e eu só via um pelo preto saindo de dentro do nariz grande dele. E ele me perguntou uma pergunta, eu não ouvi qual era a pergunta, mas sei que era uma pergunta pelo jeito que ele mexeu a cabeça olhando pra mim e levantou a sobracelha direita. A da mão que escreve, porque ele era destro, eu vi como ele segurava a caneta quando escrevia. E a caneta dele era caneta de destro porque tinha ponta fina que soltava um monte de tinta no papel e deixava a letra dele bonita e viva, e forte, chamando a atenção aquele azul todo no papel branco.


Se ele fosse canhoto ele ia ter que usar uma Pilot normal porque uma caneta daquela ia fazer a tinta toda borrar quando ele passasse a mão esquerda por cima do papel enquanto ia escrevendo e rabiscando quadradinhos no canto da folha enquanto falava. E ele me fez a pergunta e me olhou curioso porque eu estava quieto até então e ele mal sabia que eu tinha voz, e ele me olhou e mexeu a cabeça e levantou a sobrancelha direita e eu não tinha a mínima ideia do que ele tinha perguntado e fui ficando nervoso e nervoso e não conseguia pensar em mais nada além daquele fio preto enorme e feio saindo de dentro do nariz dele.


E eu me levantei rápido, estiquei a mão pra frente e arranquei aquele fio do nariz dele, eu arranquei um pelo do nariz do chefe, meu deus onde eu tava com a cabeça pra arrancar um pelo de dentro do nariz do meu ex-futuro-chefe que ia me contratar como coordenador e agora não vai mais? Coordenador, coordenador como meu pai ia ter orgulho de mim e dizer “viu filho, depois de comer tanta carne de pescoço, chegou a hora do filé mignon”, mas eu achava que aquilo ainda não era filé mignon porque tinha salário de carne de pescoço, era uma carne de pescoço com nome de filé mignon. Mas eu arranquei o pelo do nariz dele e nunca mais ia conseguir aquele emprego, então eu levantei e saí correndo.


Eu corricorricorri até sair do escritório e o elevador não tava no andar e eu me apavorei com o chefe correndo atrás de mim com dois seguranças e gritando “peguem aquele homem, ele arrancou um pelo do meu nariz” e eu fiquei com vergonha e medo e não quis esperar o elevador então desci correndo pelas escadas. Descer escadas correndo é perigoso, eu sei porque minha mãe sempre dizia pra eu descer as escadas devagar, não correr pra descer as escadas, mas dessa vez eu não pensei na minha mãe e desci correndo bem rápido e tropecei e caí e rolei escada abaixo. E minha mãe riu de mim em um balãozinho na minha cabeça, ela aparecia de bobs no cabelo e ria de mim, o que é engraçado porque eu nunca vi a minha mãe de bobs no cabelo, mas eu acho que essa é a imagem de mãe má que ri da gente, eu acho, mãe de bobs no cabelo.


Mas eu levantei corri mancando pra fora do prédio e cheguei na rua e peguei o carro e fugi, acelerando e costurando o trânsito até chegar no parque e estacionar e parar o carro embaixo de uma árvore grande respirar tranquilo porque eu tinha despistado os seguranças que talvez estivessem atrás de mim. E só então eu percebi que ainda segurava o pelo entre os dedos.


Texto enviado por Fábio Ricardo, ( fabio@fabioricardo.com), Blumenau.



Fonte: (para seção de literatura)




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