Mais Colunistas

O que você achou do que leu na coluna? Comente

O OBITUÁRIO QUE CELSO PITTA MERECIA
Sábado, 21 de Novembro de 2009

Aqueles que vão desta para melhor merecem nosso respeito. Cumpriram este incrível ciclo da existência, que separa vida e morte. E não importa qual tenha sido a conduta em terra dos que partem, pois a partida lhes dá a possibilidade de acertar contas com a Justiça Eterna e obter anistia dos pecados mais capitais.


Toda regra, no entanto, deve ter uma exceção que a comprova. Não são palavras minhas, são enunciado da ciência. E Celso Pitta, para mim, é uma destas exceções, que comprova a regra acima.


Que ele possa acertar suas contas lá em cima e tentar fugir do inferno, mas já deveria te-lo feito em terra, pelos danos que causou por aqui. Ele, alguns comparsas e o grande mestre de todos, Paulo Maluf, estão envolvidos em todas sorte de suspeitas, denúncias e processos civis e criminais, de ordem financeira e administrativa. São bandidos que meteram a nossa grana no bolso, lesaram o Erário, empobrecem o país.


Por isso Pitta, ainda em vida, deveria ter convocado uma entrevista coletiva, no hospital se necessário, para dizer tudo o que sabia sobre os labirintos obscuros do poder. Só assim lavaria a própria alma, só assim mereceria perdão. Não adianta deixar para declarar tudo a São Pedro, se bobear pensando ainda em engana-lo para usufruir dias de fartura e luxo no paraíso. É preciso pensar, antes de tudo, nos semelhantes, naqueles a quem ludibriou, que somos nós.


Por isso acho também que a imprensa supervalorizou a morte do ex-prefeito de São Paulo. Deram espaço demais para ele, transformando em drama comovente o seu epílogo nefasto. Merecia somente um obituário, em jornal de bairro, escrito assim:


Morreu ontem, de câncer, o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, conhecido em todo o Brasil por aplicar golpes tão perfeitos que lhe renderam o direito de nunca ser punido. Foi discípulo de outro célere contraventor do colarinho branco: Paulo Maluf, com quem protagonizou alguns dos mais bem elaborados planos de superfaturamento de obras e lavagem de dinheiro do Brasil.


Pitta deixa enlutados a mulher, filhos, netos, apadrinhados, contadores, banqueiros, mulas, laranjas e demais colegas de vida pública. Nas horas vagas, gostava de contar dinheiro e fazer piadas sobre as voltas que dava na Justiça brasileira, incapaz de coloca-lo na cadeia, mesmo diante de evidencias acachapantes.


Sempre disposto a ajudar aqueles que lhe pudessem molhar a mão ou fazer algum agrado mais pomposo, Pitta não poupava esforços na hora de forjar documentos, assinar papéis com objetivo duvidoso e identificar oportunidades imperdíveis em paraísos fiscais. Por isso deixará saudades entre aqueles com quem convivia.


 


Que Celso Pitta descanse em paz. Nós descansaremos, sem ele.


+ Artigos
Rodrigo Pereira
Jornalista, formado e pós graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina, acumulou 10 anos de experiência como editor e repórter em três jornais catarinenses. Nesta coluna, assume a função de analista, comentando aspectos e nuances dos acontecimentos relatados pela mídia.
É a interpretação dos fatos por quem conhece a notícia.
Todos os direitos reservados © Copyright 2009 - Política de privacidade - A opinião dos colunistas não reflete a opinião do portal
Criação visual Ferver | Tecnologia web Virtual Force