Foco em Capítulos

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UMA DÍVIDA COM A SUSTENTABILIDADE
Sexta-Feira, 22 de Dezembro de 2017

Reportagem e fotos: Adriano Lins

Edição: Rodrigo Pereira

A presente publicação não tem, de forma alguma, o objetivo de apontar culpados e muito menos de promover qualquer tipo de caça às bruxas. Motiva-se apenas e tão somente a trazer à tona um assunto que precisa ser debatido, sob pena de se fazer vista grossa a uma responsabilidade que é de todos, não só de A, B ou C. Trata-se de um fato sem culpa, mas sobre o qual todos precisam assumir parcela de responsabilidade, para que se possa encontrar uma solução para o problema e dar padrões ambientais mais sustentáveis para os maiores eventos do país.

Oktoberfest

A ideia de levantar o assunto surgiu a partir da observação de uma estatística da Oktoberfest de Blumenau, segundo maior evento da cultura germânica no mundo ocidental, que, só na 34ª edição, encerrada no último dia 22 de outubro, recebeu um público de quase 600 mil pessoas, que consumiu mais de 612 mil litros de chope, servidos em mais de 1,5 milhão de copos plásticos –  número 3,28% maior do que na edição anterior. Este é o impacto mais expressivo que o consumo da bebida oriunda do malte, da água e do lúpulo, apreciadíssima pela cultura germânica e pelos frequentadores da festa blumenauense, causa no meio ambiente durante os 18 dias do evento que reúne mais de meio milhão de pessoas todos os anos.

Mas toda esta quantidade de material reciclável hoje pode ser reaproveitada, poupando o meio ambiente de tanta poluição, certo? Errado, infelizmente. Com os métodos e tecnologias disponíveis hoje, segundo especialistas e fontes ouvidas pelo Análise em Foco, a reciclagem do plástico contaminado (sujo), como os copos com resíduo de chope descartados na Oktoberfest, ainda não tem custo-benefício adequado para estimular a cadeia de reaproveitamento, como ocorre com o alumínio, que pesa mais e por isso dá mais retorno para quem recicla, ou a garrafa pet que pode ser reaproveitada com processo de higienização mais simples e menos dispendioso, por ter menor quantidade de elementos contaminantes.

– O copo utilizado na Oktoberfest é reciclável, mas economicamente não vale a pena, ao contrário da latinha. É importante fazer pela questão ambiental, mas é necessário levar em conta a viabilidade econômica desta reciclagem. Além disso, para descontaminar este material seria necessário utilizar uma grande quantidade de detergente, que também agride a natureza, sem falar no uso de água, que provocaria uma grande desperdício – explica o gerente de resíduos sólidos do Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto de Blumenau (Samae), João Carlos Franceschi.

Cálculo

Agora faça as contas e tente imaginar o tamanho da pilha de copos que, ao longo de 34 anos (a Oktoberfest tem praticamente a mesma média de público e consumo desde que nasceu), foram jogados no aterro sanitário da cidade. A conta é simples de fazer: 34 anos x 1,5 milhão de copos por ano = 51 milhões de copos plásticos enterrados no solo. É esta, aproximadamente, a quantidade de material não biodegradável lançada no meio ambiente pelo principal evento do calendário catarinense e um dos principais do Brasil.

Fazendo uma projeção desta realidade para outros eventos da cidade, do estado e do país, que também produzem grande quantidade de resíduos sólidos descartáveis, percebe-se que o problema é generalizado. Conferimos como outros grandes eventos do Brasil encaminham a questão, e, em todos, a realidade é a mesma: copos de plástico usados para consumo de bebida, ou qualquer outro fim, não são reaproveitados e terminam em aterros sanitários, onde levam pelo menos 200 mil anos para se decompor integralmente e ainda deixam um rastro de resíduos químicos que ninguém sabe direito que tipo de impacto pode ter no meio ambiente.

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NA FESTA DO PEÃO, SÓ ENTRA LATINHA E PET
Sexta-Feira, 22 de Dezembro de 2017

O único evento de grande porte, entre os analisados, que foge a esta regra por uma questão circunstancial é a Festa do Peão Boiadeiro de Barretos, em São Paulo, que todos os anos, de acordo com os organizadores, recebe cerca de 900 mil pessoas em 11 dias de festa. Por utilizar apenas latas de alumínio e garrafas pet na distribuição de bebida ao público, poupa o meio ambiente de uma quantidade significativa de material descartável, já que estes dois materiais são mais facilmente reaproveitados pela cadeia da reciclagem. De aproximadamente 177 toneladas de lixo recolhidos durante a última edição do evento, segundo números oficiais, cerca de 14 toneladas foram de latas de alumínio, algo em torno de 9%. Com demais materiais recicláveis, como plástico, garrafas pet e papelão, os organizadores acreditam reciclar cerca de 15% dos resíduos sólidos produzidos no evento paulista – o que seria um número expressivo, considerando que no Brasil esta média é de apenas 3%.

Receptação

De acordo com a bióloga Milena Carvalho, da prefeitura de Barretos, a administração municipal compra todo o alumínio coletado pela cooperativa de catadores que atua no local do evento. Os demais materiais recicláveis, como plástico fino, garrafa pet e papelão, segundo ela, são encaminhados direto para a cooperativa e lá são prensados com material do restante da cidade, de forma que não há uma estatística destes três itens para a festa. O recolhimento de material reciclável durante a Festa do Peão Boiadeiro, considerado o maior evento do gênero na América Latina, também tem apoio do Instituto de Compromisso com o Desenvolvimento Humano, que atua em eventos promovendo a coleta seletiva e dando apoio a agentes ambientais. 

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TÉRMICA REAPROVEITA DESCARTÁVEIS DO ROCK IN RIO, MAS COPOS FICAM DE FORA
Sexta-Feira, 22 de Dezembro de 2017

No Rio de Janeiro algumas iniciativas tentam dar encaminhamento mais ambientalmente aceitável para o lixo produzido em grandes eventos. No Rock in Rio, por exemplo, uma promoção da Heineken, patrocinadora do evento, troca copos descartáveis utilizados no fornecimento de chope por outros de melhor qualidade, feitos com material mais resistente e estilizado com a marca da cervejaria, podendo ser usado ao longo dos sete dias de apresentações na cidade do rock e ainda mantido como souvenir no fim do evento. Cada 15 copos comuns coletados no interior do evento valem um copo especial. A gincana costuma ter sucesso entre os frequentadores e milhares de copos são reunidos para troca.

De acordo com a coordenadora de sustentabilidade da Heineken Brasil, Beatriz Sá, os copos recebidos de volta durante o Rock in Rio 2017 foram encaminhados ao Comércio de Metais Areca, sendo destinados a beneficiadores e comercializadores de metais recicláveis da região de São Paulo. No total, durante o período do evento foram separados 4.860 kg de copos plásticos recicláveis e enviados para reciclagem.

 

Conversão térmica

Uma pequena parte (não informada) das quase 400 toneladas (150 recicláveis) de resíduos sólidos produzidos no Rock in Rio passou a ser reaproveitada como combustível em uma usina onde materiais descartáveis são incinerados para produção de energia elétrica a partir de energia térmica – a conversão é feita na Usina Verde, empreendimento privado localizado na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. Os copos de plástico utilizados no consumo de cerveja, contudo, não entram neste processo, por um motivo semelhante ao que impede seu reaproveitamento na cadeia de reciclagem: o custo para incinerá-los de forma adequada e encaminhar corretamente os resíduos deixados pela combustão ainda é proibitivo.

Carnaval da reciclagem

Também no Rio, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) tenta dar encaminhamento mais sustentável ao lixo descartável produzido em outro grande evento da cidade, o Carnaval, que, além dos desfiles mundialmente conhecidos do sambódromo, tem outras três dezenas de eventos paralelos envolvendo blocos de rua e festas em clubes.

Ao todo, o Carnaval carioca gera 785 toneladas de lixo, das quais cerca de 20%, segundo a Comlurb, é de material reciclável, coletado separadamente e entregue à cooperativa de catadores. Copos de plástico sujos, infelizmente, não são reaproveitados.

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CIDADE SUECA TEM SALDO ZERO DE RESÍDUO SÓLIDO
Sexta-Feira, 22 de Dezembro de 2017

A conversão térmica dos copos de plástico distribuídos em eventos ainda tem custo proibitivo no Brasil, mas em outros países já tem cidade usando o sistema para queimar praticamente tudo o que produz de resíduo sólido não reciclável, através de um processo em que tanto os gases poluentes derivados da queima quanto os resíduos deixados por ela são tratados e neutralizados corretamente .

É o que acontece na pequena Boras, na Suécia, município com menos de 100 mil habitantes onde a quantidade de resíduos sólidos enviada para o aterro sanitário não chega a 1% do total coletado.  De acordo com a professora Ivone Gohr Pinheiro, do programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental da Universidade Regional de Blumenau (Furb), os rejeitos sólidos não recicláveis produzidos na cidade sueca, como o plástico contaminado, são incinerados para gerar energia térmica que abastece casas e indústrias – lá, portanto, copos sujos de chope não vão para o aterro sanitário, como acontece no Brasil, e sim para uma usina térmica. Já o lixo orgânico de Boras, segundo ela, é todo transformado em biogás para abastecer veículos do transporte coletivo.

– Segundo eles apenas 0,5% do lixo produzido na cidade vai para o aterro sanitário – comenta a professora da Furb, que participou de um programa de compartilhamento de experiências entre a instituição de ensino blumenauense, a Associação dos Municípios do Médio Vale do Itajaí (Ammvi) e a Universidade de Boras.

Passos

O Brasil já dá seus primeiros passos no segmento, mas de forma ainda tímida. A Usina Verde, por exemplo, queima resíduos sólidos para produzir energia elétrica a partir de energia térmica, mas atende a uma fração limitada do mercado e se ressente da falta de incentivo para este tipo de cadeia de reaproveitamento no país.

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SAMAE DE BLUMENAU QUER LEI PARA RESPONSABILIZAR EVENTOS
Sexta-Feira, 22 de Dezembro de 2017

Como se pode perceber, portanto, há um problema a se resolver e é preciso debruçar-se sobre ele para que no futuro sua resolução não venha a ser muito mais difícil e cara.

E quais seriam as alternativas para resolvê-lo? Uma delas, dar mais viabilidade à conversão térmica de resíduos sólidos. Até porque a perda de materiais descartáveis que deixam de ser reaproveitados no processo de reciclagem não é exclusividade dos grandes eventos. De acordo com Bruna Calado, presidente da Reciblu, cooperativa que reúne os coletores de material reciclável de Blumenau, cerca de 30% do material que chega à unidade de triagem e processamento da cooperativa precisa ser rejeitada e encaminhada para o aterro sanitário por falta de condições de reaproveitamento, principalmente por contaminação orgânica. É lixo que viraria energia se o Brasil não fosse negligente com o problema.

Outra possibilidade seria a utilização de copos elaborados com material biodegradável, mas, de acordo com a assessoria de comunicação da Heineken Brasil (dona da cervejaria que patrocina a Oktoberfest), experiências com este tipo de material já foram feitas, mas a rápida deterioração e a fragilidade do componente dificulta o manuseio e o acondicionamento do produto, inviabilizando o uso em grandes eventos – em 2017 a empresa colocou quase 2 milhões de copos plásticos em circulação durante a Oktoberfest, incluindo os utilizados na festa e aqueles destinados a bares, quiosques e ações promocionais.

Uma terceira forma de evitar o uso do solo para depósito de materiais não biodegradáveis seria a produção do Combustível Derivado de Resíduo (CDR), utilizado como substituto do óleo na indústria.  O processo, no entanto, também tem custo elevado e pouco viável, ainda, no Brasil, segundo o gerente de resíduos sólidos do Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto de Blumenau (Samae), João Carlos Franceschi.

Lei dos resíduos

Ele informa que o Samae trabalha na criação de uma proposta de lei para determinar responsabilidades na gestão de resíduos produzidos por empresas e eventos.

- As empresas que realizam eventos na Vila Germânica, como Oktoberfest e Festitália, por exemplo, deverão elaborar um plano de gestão de resíduos, dando destino ao lixo, não ficando mais a cargo do município fazer este trabalho e arcar com todas as despesas. As empresas exploram economicamente essas atividades e por isso devem dar destino correto para os resíduos produzidos, assim não sendo mais subsidiado pelo contribuinte – afirma  Franceschi.

Hoje quem paga a coleta de resíduos nestes eventos é o contribuinte, já que o município e suas estruturas administrativas, como a Vila Germânica, são isentos da taxa de coleta de lixo. O custo do recolhimento nestes pontos, portanto, é dividido pelo Samae com todos os blumenauenses na taxa da coleta do lixo, cobrada na conta de água. Somente durante os 18 dias de Oktoberfest, são quase 500 toneladas a mais de lixo produzidas no município.

Atitude consciente

Vale lembrar, no entanto, que uma atitude mais consciente é a forma mais rápida, barata e fácil de amenizar bastante o problema, enquanto ele não é resolvido. Nesta linha, utilizar o mesmo copo na hora de repetir o chope ou adotar um caneco reutilizável podem ser ótima alternativa para reduzir o impacto que a diversão e a alegria causam ao meio ambiente. Pensemos nisso, a natureza agradecerá.


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