
O terremoto de 8,8 graus na escala Richter, que atingiu a costa Oeste do Chile neste sábado, causou abalos também na Argentina e no Brasil. No vizinho portenho, chegou a 6,1 graus e matou duas pessoas.
No Havaí, ao Norte do continente americano, uma tsunami foi relatada pelo serviço de prevenção a desastres e teria causado estragos em uma das ilhas do arquipélago.
De acordo com especialistas, o abalo sísmico que atingiu os chilenos tem força 100 vezes maior à daquele que atingiu o Haiti,
E o maior terremoto já registrado na história, de 9,5 graus na escala Richter, também ocorreu na mesma região do Chile, em 1960, matando cerca de 3 mil pessoas.
A pergunta que não quer calar, então: como pôde o terremoto de 7 graus que atingiu o Haiti causar um número de mortes – em torno de 200 mil, segundo o governo haitiano – tão superior ao causado pelos três abalos gigantescos que assolaram o Chile nos últimos 50 anos? Juntos, os tremores chilenos mataram menos de 10 mil pessoas, ou 5% do que matou um único tremor no Haiti.
A resposta é bem simples: porque o Chile pensa a sua urbanização desde 1939, quando um terremoto matou 30 mil pessoas.
Em 1960, quando o Chile balançou com o maior tremor da história, a indústria da construção civil já atendia a normas de segurança e erguia prédios preparados para resistir a tremores e preservar vidas.
Diferenças de classificação dos terremotos, como a localização do epicentro, que no caso do chileno era no mar e não na terra, também justificam as diferenças de prejuízos entre Haiti e Chile. Mas as vantagens de infraestrutura dos chilenos fazem a diferença mais marcante.
O Chile é uma ilha de excelência no meio de um continente atrasado, obsoleto e arcaico. Tem índices de analfabetismo baixíssimos; uma economia estável e com forte vocação exportadora; uma instituição democrática saudável e, como provou mais uma vez, instituições reguladoras que funcionam.
Enquanto isso o pobre Haiti, abandonado pelos franceses e demais nações ricas ao fim do colonialismo europeu, arrastou-se ao longo dos anos sem nenhum tipo de lei, regra ou disciplina urbanística. As construções têm planejamento e execução deficientes, e, como provou o terremoto de janeiro, são tão frágeis quanto uma casca de ovo.
E o Brasil, como resistiria a abalos como os que atingiram vizinhos tão próximos? Cidades como São Paulo, ou mesmo Balneário Camboriú, verticais e urbanizadas, viriam a baixo, como no Haiti, ou suportariam o tremor, como no Chile?
Sabe-se que as características geológicas da formação continental brasileira diminuem muito os riscos de tremores mais fortes. A natureza, contudo, é dinâmica e, a partir de certo ponto, imprevisível, convém reconhecer.
Se lembrarmos que nem os riscos já conhecidos e detectáveis sabemos administrar direito, a exemplo do que aconteceu recentemente
Sabíamos, por exemplo, que nossos morros são moles e derretem com a chuva. Mesmo assim, permitimos que as pessoas fossem morar neles, para, diversas vezes, acabar sob a lama de uma encosta ou o escombro de uma casa.
Que perigos, então, poderíamos estar criando sem levar em conta um risco que, até o momento, é pouco provável? Assunto para geólogos e gestores públicos.