
O espaço Analista em Foco geralmente recebe artigos das fontes escaladas para comentar e interpretar os fatos do noticiário. Plantamos questões e colhemos depois os artigos.
Por duas vezes desde o lançamento do portal, em julho do ano passado, rompemos o protocolo e publicamos, no lugar de artigos, entrevistas, em formato de pergunta e respostas, conhecidas na comunicação como ping-pongs.
Fizemos isso com a miss Blumenau, Nadjara Koslowski, pela natureza descontraída do assunto abordado por ela – futebol –, e com o reitor da Universidade de Blumenau (Furb), Eduardo Deschamps, que nos descortinou detalhes importantes do processo de federalização da Furb.
Agora faremos a terceira ruptura de protocolo, publicando entrevista com o novo presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Blumenau, Paulo César Lopes. Acreditamos que nós fomos bem na formulação das perguntas e ele esclarecedor e direto na apresentação das respostas. Daí a decisão de publicar o material na íntegra.
Sem tergiversar, Lopes admite ser favorável ao funcionamento do comércio aos fins de semana – o eterno tabu, causador de muita polêmica na cidade; atribui as deficiências de atendimento e rotatividade no comércio à falta de qualificação do trabalhador e conclui: comerciantes precisam investir mais no próprio negócio.
Confira, a seguir, a entrevista de Paulo César Lopes para o Análise em Foco:
Análise em Foco - Qual seu maior desafio à frente da CDL?
Paulo Lopes - Acreditamos que um dos grandes desafios seja fazer com que os associados participem mais ativamente das decisões da CDL. Precisamos e queremos despertar a união dos associados e permitir que eles tenham voz ativa na entidade. Para isso, pretendemos divulgar mais as iniciativas e estimular os comerciantes a buscarem soluções para suas necessidades através da CDL.
AEF - Pretende fazer algo diferente do que foi feito nas duas últimas gestões? Por quê?
Lopes - Cada líder tem a sua própria maneira de agir e de conduzir as situações, mas a princípio pretendemos manter o que vinha sendo feito e aprimorar o que for preciso. Sabemos que o Marcelino Campos coordenou duas gestões extremamente marcantes na história da CDL, e o nosso desafio agora é trabalhar com dedicação para permitir que a entidade se desenvolva cada vez mais.
AEF - De que forma a CDL contribui para o progresso e a evolução da atividade lojista?
Lopes - A CDL tem como objetivo principal ser a entidade que representa oficialmente os lojistas, lutando por seus interesses e buscando soluções para as questões do dia-a-dia do comércio. Desta forma e, consequentemente, contribui de maneira significativa para o desenvolvimento da atividade, demonstrando sua representatividade e força. Inúmeras conquistas dos lojistas, estadual e nacionalmente, contaram com a atuação decisiva das CDLs, que hoje representam um importante movimento organizado no Brasil. A CDL também contribui prestando importantes serviços aos seus associados, sendo que o principal é o SPC – Serviço de Proteção ao Crédito.
AEF- O que mais precisa ser melhorado no comércio de Blumenau?
Lopes - Somos, reconhecidamente, uma referência estadual em qualidade e tradição do comércio, mas nossos lojistas também precisam procurar investir mais no seu negócio, aprimorando sua fachada, sua vitrine, enfim, oferecendo sempre mais conforto e satisfação ao cliente. O varejo é muito dinâmico, por isso é importante observarmos as tendências e a agilidade com que as coisas acontecem. É preciso estar atento às mudanças e evoluções do segmento, constantemente.
AEF- E quais as principais virtudes do comércio blumenauense?
Lopes - O comércio de Blumenau tem uma tradição forte com produtos de qualidade, reconhecidos em todo o Brasil, além do seu dinamismo e capacidade de recuperação diante das dificuldades. Por outro lado, para contribuir, nossos consumidores são bons pagadores e fiéis às suas lojas de confiança, principalmente nos bairros.
AEF - O atendimento do comércio blumenauense, por exemplo, bastante criticado por especialistas, precisa melhorar? Como?
Lopes - Um bom atendimento é realmente imprescindível em uma loja, principalmente por ser uma experiência que marca pessoalmente cada consumidor de uma maneira diferente. Temos consciência de que este trabalho de qualificação no atendimento precisa ser constante e é esta atuação que pretendemos intensificar ainda mais no nosso Centro Educacional Varejista (CEV), através de cursos, seminários e palestras. Só através de um treinamento de qualidade conseguiremos alcançar um excelente nível de atendimento no comércio de Blumenau, mas para isso precisamos contar com o engajamento e a participação de todos os associados.
AEF - A rotatividade de funcionários é uma das causas das deficiências de atendimento? Por que ela ocorre?
Lopes - O comércio, historicamente, é um segmento que, geralmente, não exige uma completa qualificação profissional dos seus funcionários, e esta é uma das grandes causas de rotatividade. Muitas vezes a pessoa ingressa neste mercado de trabalho totalmente despreparada, sem procurar conhecer a fundo o seu ambiente de trabalho, e muito menos o produto que está vendendo. Quando isso acontece, o rendimento cai e o trabalhador sente-se desmotivado. Daí novamente a importância do treinamento e da qualificação.
AEF - 2009 foi um ano em que o comércio foi bastante alavancado pela liberação do FGTS, escapando da crise financeira. Em 2010, quais as perspectivas? Pode haver diminuição da atividade?
Lopes - Não acreditamos em retração, pois o país está em pleno desenvolvimento. Existe também a expectativa, divulgada pelo próprio Banco Central, de que o PIB do Brasil cresça 5,8% em 2010. Com base nisso, acreditamos que o ano deva ser bastante positivo e poderemos manter o crescimento e a fase de recuperação depois da crise. Além disso, é ano de Copa do Mundo, de eleição, e isso sempre acaba estimulando o consumidor a comprar e movimentar os negócios em alguns setores do varejo.
AEF - O turismo hoje é significativo para o movimento do comércio? Poderia melhorar? Como?
Lopes - Blumenau é uma cidade com vocação turística e o comércio não pode ignorar esta significativa fatia do nosso movimento econômico. Mas é claro que poderia melhorar e não só para o comércio, mas para a cidade como um todo. Precisamos investir em mais opções de lazer, hotelaria e gastronomia, oferecendo mais conforto aos nossos visitantes. Blumenau também deve, o mais rapidamente possível, investir em infraestrutura.
AEF - Em relação a isso, qual seu posicionamento sobre o fechamento das lojas em finais de semana? Deveriam abrir?
Lopes - Tenho certeza que estamos lidando com um consumidor mais antenado e exigente, com cada vez menos tempo disponível para as suas compras. Neste cenário, inclusive com tendências mundiais, acredito que o comércio deva, sim, estar disponível aos seus clientes nos finais de semana. Claro que sempre respeitando o que consta na Convenção Coletiva de Trabalho, firmada com o Sindicato dos Trabalhadores. Não queremos sacrificar ninguém, precisamos, sim, de consumidores e trabalhadores satisfeitos.
AEF - Como costumam ser os anos eleitorais para o comércio, em termos de movimento?
Lopes - O ano eleitoral costuma sempre movimentar a economia como um todo, pois acaba, por exemplo, sempre gerando uma quantidade importante de empregos temporários, o que faz com que um número maior de pessoas tenha renda disponível para gastar no comércio.
AEF - Alguma mudança de perspectiva para este ano?
Lopes - Economicamente apostamos em um ano extremamente positivo para o comércio e para a região, principalmente em Blumenau, onde temos a expectativa de grandes investimentos na recuperação da infraestrutura prejudicada pela tragédia de 2008.
AEF - A CDL, como entidade, pretende se posicionar, politicamente, em relação a candidatos ou propostas na eleição deste ano?
Lopes - A CDL e seus dirigentes têm como princípio o não posicionamento a favor ou contra candidatos ou propostas. O que a nossa entidade procura incentivar nos lojistas é a escolha consciente dos candidatos, principalmente levando em conta as nossas necessidades, dando preferência aos futuros deputados ou senadores que lutem realmente pelo desenvolvimento da nossa região. Vamos reeditar, inclusive, em conjunto com as demais entidades empresariais, a campanha do "Voto Útil", pois entendemos ser de extrema importância a valorização dos candidatos daqui.
AEF - Como o Sr. avalia a construção de um novo Shopping Center na cidade, às margens da Via Expressa? Há mercado para mais um empreendimento deste porte em Blumenau?
Lopes - Nós sempre vamos lutar pelo crescimento e desenvolvimento do segmento em Blumenau, e a instalação de um empreendimento deste porte na cidade é, sem dúvida, um acontecimento importante. Temos hoje aquela região como um pólo de destaque em termos de desenvolvimento para o futuro em Blumenau e este shopping deve contribuir para este novo cenário, principalmente na geração de empregos e renda. A cidade está crescendo e hoje toda a região metropolitana está acompanhando este processo, portanto a questão de haver ou não mercado ainda é muito relativa. Tudo vai depender dos benefícios que este empreendimento trará para a região e de como o comércio tradicional de rua vai buscar se adaptar a esta nova realidade.
AEF - Alguém sai prejudicado com ele?
Lopes - Talvez o pequeno comerciante da região saia prejudicado, mas ainda é muito cedo para fazer previsões. Além do mais, vai depender da capacidade de cada um em se inovar e cativar os clientes.